Há incontáveis aspectos associados à violência contra a mulher e não pretendo esgotá-los nesse texto, porém, vou ponderar sobre alguns
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| Foto reprodução |
Por Dr. Carlos Augusto de Medeiros
A
resposta óbvia é: enquanto ainda for necessário e, infelizmente, pelo andar da
carruagem, ainda vai demorar muito para deixar de sê-lo. Recentemente, ficamos
chocados com as cenas de agressão de um tal de Dj Ivis em sua mulher, em frente
ao seu filho. Se você não ficou chocado com as cenas, há uma coisa muito
errada, não apenas com você, mas com toda a nossa sociedade.
Praticamente todo mês há, na grande
mídia, casos de violência contra a mulher que, muitas vezes, culmina em
feminicídio. Estou falando da grande mídia, mas se levarmos em conta os
incontáveis casos não notificados, é absolutamente estarrecedor o quadro de
violência contra a mulher. Certamente, com o isolamento social, em decorrência
do qual fomos submetidos a fatores estressantes e à restrição a diversas
atividades que nos davam prazer, intensificou a frequência de violência
doméstica. O próprio presidente da república mencionou a relação entre o
isolamento social e a violência doméstica, numa tentativa de nos convencer a
não passar merthiolate porque arde.
Há incontáveis aspectos associados à
violência contra a mulher e não pretendo esgotá-los nesse texto, porém, vou
ponderar sobre alguns. O primeiro deles é descrito elegantemente pela
psicanálise como um dos mecanismos de defesa do “eu”, o deslocamento. Em termos
bem simples, o deslocamento consiste na troca do alvo de um impulso agressivo
de um que pode revidar para outro que não pode fazê-lo. O antigo site “Mundo
Canibal” exemplificava muito bem o conceito com a animação intitulada “Havaianas
de Pau”. Nessa animação, uma criança é surrada pelo pai quando o Corinthians
perde. Após apanhar, a criança diz a frase que muitos certamente se lembram:
“Eu aprendi que, quando o Corinthians perde, a culpa é minha”.
O pai, no desenho, por mais que tente,
terá muitas dificuldades em agredir os jogadores e o técnico do Corinthians e,
certamente, não pode fazê-lo de sua casa. Nesse momento, o deslocamento entra
em ação e ele pode descontar as suas frustrações em quem não pode
contra-atacar, no caso, o seu filho. Esse processo tão comum a nós se repete na
violência contra a mulher. Frustrações das mais diversas são frequentemente
descontadas nas mulheres. Isso ocorre por duas simples e nauseantes razões: 1.
As mulheres têm menos condições de contra-atacar, e 2. A sociedade considera
tolerável homens fazê-lo. A primeira palavra que me vem à cabeça ao falar em
deslocamento é a covardia. Já que o homem não pode agredir quem o ofendeu,
agride a pessoa que não pode revidar, no caso, a mulher.
Além do deslocamento, é óbvio, os
valores conservadores de que as mulheres devem ser submissas ao homem
contribuem sobremaneira para as violências contra a mulher. E sinto muito, não
me venham com essa de que “Vocês têm que ter paciência. Fomos criados por pais
conservadores. Ainda estamos aprendendo. Ainda estamos nos desconstruindo”. É
fácil pedir paciência quando se está do lado de cá da espada para quem está com
o gume no pescoço. Pessoas estão sofrendo e morrendo enquanto são dadas
desculpas para a conivência com esse e tantos outros absurdos.
Já que estamos falando de desculpas,
podemos abordar outro mecanismo de defesa do “eu”, a racionalização. A
racionalização diz respeito à criação de justificativas socialmente aceitas
para atitudes reprováveis, como agredir uma mulher, por exemplo. Agredir
qualquer pessoa é errado, mais errado ainda seria agredir quem não tem
condições de se defender. Como atenuantes à própria conduta repulsiva, homens
se justificam: “eu estava estressado”; “ela me traiu”; “ela que começou”; “o
álcool me faz perder a cabeça” etc. A racionalização é utilizada para
avaliarmos a nossa culpa e a reprovação social. É realmente curioso o fato de
que a sociedade é extremamente benevolente ao acatar tais justificativas, mas
severa com as mulheres quando são promíscuas, quando querem decidir sobre o
próprio corpo, quando não desejam ser mães, quando não se submetem etc.
Essa última parte do texto é destinada
a você mulher, vítima de violência. Em primeiro lugar, que fique bem claro que
a violência psicológica (por exemplo: “sua gorda nojenta”; “você nunca vai
encontrar alguém que te queira”; “você é um lixo”; “você não presta”) é tão
física quanto um tapa. Ignore as barbaridades que te disseram ao longo da sua
vida, do tipo: “você é responsável pela harmonia do lar”; “você deve obediência
ao seu marido”; “sirva seu marido, senão, ele pode procurar na rua”; “nunca se
oponha ao seu marido em público”; “o casamento é indissolúvel”; “nada pior do
que uma mulher divorciada”; “se o casamento acabar, o fracasso é seu”.
Por fim, eu sei que é difícil, mas não
seja conivente com a própria violência sofrida. Sem dúvida, na condição de
psicólogo, acredito na mudança, todavia, a mudança só ocorre quando desejamos
mudar. Vários homens, após cometerem violência doméstica, além de fornecerem
justificativas como as exemplificadas acima, prometem que vão mudar, que nunca
mais farão “aquilo” etc. Os dados de reincidência de violência doméstica,
infelizmente, recomendam ceticismo diante de tais promessas.
Na realidade, a tendência é contrária,
ou seja, a violência tende a se agravar. A minha orientação é: só acredite nas
promessas se elas forem acompanhadas de tentativas concretas de mudança, como a
busca de apoio em psicoterapia, grupos de agressores anônimos ou ao serviço
social. Dizer que vai mudar é fácil, agora mudar é bem difícil. Lembre-se, você não está sozinha! Mas
ficará sem buscar ajuda!
(J.Br) www.jornalaguaslindas.com.br
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