Contando a partir do tiroteio na escola de ensino médio Columbine, no estado do Colorado, o jornal analisou quase 300 incidentes
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| Foto AFP |
Um
levantamento do jornal americano The Washington Post indicou que, apesar do
fechamento de milhares de instituições de ensino durante a pandemia, os EUA
registraram 14 tiroteios em escolas durante o horário de aula desde janeiro
deste ano, o mais alto nesse período em ao menos 22 anos. “Além dos mortos e
feridos, crianças que testemunham violência armada ou se protegem atrás de
portas trancadas para se esconder dela podem ficar profundamente
traumatizadas”, escreveu o jornal. O governo americano não tem uma base de
dados para tiroteios em escolas.
Contando a
partir do tiroteio na escola de ensino médio Columbine, no estado do Colorado
-onde, em 1999, dois alunos mataram 13 pessoas-, o jornal analisou quase 300
incidentes. Os dados revelaram que mais de 256 mil crianças já foram expostas à
violência armada nas escolas do país desde então. De acordo com especialistas,
é difícil determinar o que causou o aumento dos incidentes no primeiro semestre
deste ano. Para Peter Langman, autor e psicólogo americano especialista em
tiroteios em escolas, ainda é cedo para determinar se esse fenômeno é uma
tendência ou uma anomalia, e os diferentes critérios usados por pesquisadores
na hora de quantificar esses dados dificultam o trabalho. “Poderia ser alguma
coisa relacionada à Covid. Crianças, antes confinadas, agora retornando às
escolas, mas não sabemos”, disse Langman à reportagem. “É complicado contar
esses incidentes, e aí quando você compara uma base de dados com a outra, você
vê números diferentes.”
Já para John Donohue 3º,
professor de direito da Universidade Stanford, o aumento demonstrado pela base
de dados do Washington Post não é surpreendente, e sim consistente com a
situação atual do país. À reportagem ele contou que o aumento da insegurança e
do medo durante a pandemia levou ao aumento de tiroteios em geral. Além disso,
protestos do movimento Black Lives Matter (em português, vidas negras importam)
no último ano causaram uma diminuição do policiamento, e a combinação dos dois
fatores levou mais pessoas a comprarem armas.
Existe uma cultura de armas
nos EUA, disse o professor, alimentada por membros do Partido Republicano e
pela NRA (Associação Nacional do Rifle) para o próprio benefício. Colocar medo
e insegurança na população vende mais armas e traz mais votos ao partido. “Nada
promove mais a venda de armas ou votos para os republicanos do que aterrorizar
americanos quanto ao crime, então isso é calculado para promover medo”, disse.
“Aí, quando milhões de
pessoas compram armas, o crime realmente aumenta, trazendo grande benefício
para o lobby de armas, porque eles podem dizer ‘olha, está realmente saindo do
controle, é melhor você também comprar a sua’.”
Em abril do ano passado, a
NRA processou o estado de Nova York por não considerar lojas de armas um
serviço essencial durante a pandemia. Quatro meses depois, um juiz descartou o
processo, alegando que a associação não tinha argumentos o suficiente para garantir
a continuidade da ação.
Nos EUA, estados podem
impedir que líderes de cidades e municípios criem regulamentações sobre um
determinado assunto por meio das chamadas “leis preventivas”. Em relação ao
controle de armas, o país possui atualmente mais leis preventivas do que as que
regulam produção, compra, porte e uso de armas em si, de acordo com estudo
publicado neste mês pela Associação Americana de Saúde Pública.
O resultado é uma crise de
saúde pública, em que os prefeitos não conseguem criar regras que regulem armas.
Existe uma lacuna legal,
explicou Pomeranz, em estados de maioria rural, por exemplo, onde o problema
com armas tende a ser o suicidio e a violência armada se concentra apenas nas
ruas das áreas mais urbanas. “Comunidades rurais e comunidades urbanas têm
necessidades diferentes e problemas de violência armada diferentes, então cada
um precisa de medidas específicas. O estado não é capaz, nem seus legisladores
têm interesse, em tomar medidas contra problemas urbanos se é majoritariamente
rural.
No dia 19 de junho deste
ano, o Colorado se tornou o primeiro estado americano a revogar uma lei que
proíbe cidades de criarem suas próprias regulações de armas de fogo. Até hoje,
44 dos 50 estados americanos possuem leis deste tipo.
De janeiro a julho deste
ano, a violência armada -incluindo homicídio, assassinato, disparos acidentais,
uso de arma em legítima defesa, suicídios, e tiroteios em massa- no país matou
173 crianças de até 11 anos e 677 adolescentes entre 12 e 17 anos, de acordo
com dados da organização Gun Violence Archive (em português, Arquivo da
Violência Armada). “Nós nos tornamos uma sociedade armada, e as pessoas que
acreditam em armas acham que essas pobres crianças sendo feridas por tiros são
apenas um resultado do exercício dos seus direitos”, disse Pomeranz.
Em instituições de ensino em
geral -incluindo universidades e escolas-, 40 incidentes de disparo de arma de
fogo aconteceram neste ano, resultando em 12 mortos e 17 feridos, de acordo com
dados da organização Everytown Research & Policy.
Durante 9 anos, nenhum país
do G7 teve tantos tiroteios em escolas como os EUA. De 2009 até 2018, o país
teve 144 vezes mais incidentes do que os segundos lugares da lista -Canadá e
França, com dois tiroteios cada-, de acordo com um levantamento da CNN. Para
Donohue 3o, o sucesso dos outros se deve a um rígido controle legal de armas.
“Você não pode parar tudo, mas você pode fazer ficar mais difícil”, disse ele.
“Esse problema vai continuar se agravando nos EUA até que medidas sejam tomadas
para restringir o poder de fogo e realmente mudarem algumas atitudes.”
Já para Langman, um
agravante é que não existe foco suficiente na prevenção de tiroteios. A maioria
do trabalho sendo feito em escolas é de medidas de proteção durante um
incidente, como simulações com os alunos. Ele disse acreditar que, apesar de
importantes, essas medidas não previnem ataques, apenas minimizam os danos.
“Existe uma grande lacuna de conhecimento entre muitas pessoas que trabalham em
escolas”, disse ele. “Reconhecer os sinais de alerta e avaliar o risco antes
que um ataque aconteça é como você previne um incidente de acontecer.”
Dentro da cultura de armas,
existe ainda um sub movimento na internet que glorifica atiradores e assassinos
em massa. Não só presente nos EUA, ele conecta pessoas ao redor do mundo,
inclusive na América Latina. Quando atiradores em Suzano (SP), por exemplo,
mataram oito pessoas e feriram 11 no colégio Raul Brasil em 2019, o massacre
foi comemorado em fóruns da dark web, e ambos os assassinos incluídos em uma
galeria de ídolos.
Ter um lugar na internet que
estimula e legitima tiroteios em massa contribui com que crianças e
adolescentes concretizem a ação, disse à reportagem Natália Pollachi, gerente
de projetos do Instituto Sou da Paz, uma organização que promove segurança
pública no Brasil. “Se a gente pensar, cinco anos atrás era muito mais difícil
ter acesso a esse tipo de fórum, esse tipo de informação.” Mas nem
todos que participam desta subcultura se tornam atiradores. De acordo com um
estudo de 2018 feito por professores da Universidade de Tampere, na Finlândia, dentro
dos interessados por tiroteios em escolas existem quatro subgrupos:
pesquisadores, fãs, “columbiners” (pessoas obcecadas com o tiroteio em
Columbine) e imitadores. Destes grupos, apenas os
imitadores apresentam interesse explícito em cometer os atos, mas membros de um
subgrupo podem pertencer a outros. Ou seja, ser um imitador não é uma
característica isolada. Na América Latina, mesmo que gradualmente, a violência
armada nas escolas também está em crescimento, de acordo com dados da Unlirec,
agência da ONU para o desarmamento da América Latina e do Caribe. O último
grande tiroteio escolar na região foi o de Suzano, mas incidentes de porte de
arma no dia a dia se tornam cada vez mais comuns.
A falta de uma base de dados
uniforme dificulta o trabalho de quem estuda o aumento da violência armada na
região, mas a aposta do Instituto Sou da Paz é que ele foi causado pelo maior
acesso de alunos às armas de fogo dentro de casa.
Dos quatro últimos grandes
tiroteios na América Latina, três aconteceram no Brasil. Para Pollachi, esse é
um reflexo da violência disseminada em nosso país. “O Brasil é, de longe, o
país que tem a maior população, então, de certa forma, é natural a gente ter a
maioria dos casos, mas a gente também é uma sociedade com altíssimos índices de
violência, altíssimos índices de violência armada, que está indo nesse caminho
de flexibilização ao acesso às armas”, disse Pollachi.
(J.Br) www.jornalaguaslindas.com.br |



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