Pai de Gabriel, que tem paralisia cerebral, e de duas meninas, Zaquel Silva morreu aos 38 anos. Família faz vaquinha para ter onde morar
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| Foto Arquivo Pessoal |
Diariamente,
Zaquel Nunes da Silva, 38 anos, carregava o filho Gabriel, 18, nos ombros.
Emprestava a força de seus braços e pernas para o rapaz – que nasceu com paralisia cerebral e, para fazer atividades cotidianas, demanda
o uso de cadeira de rodas e o auxílio de outras pessoas. A família vive no
Morro do Alemão (RJ) e, rotineiramente, quando há tiroteios, precisa
esconder-se em algum lugar seguro da casa.
Zaquel era vendedor
ambulante e trabalhava dia e noite, pois desejava comprar uma casa em um lugar
mais seguro, para viver com sua família. Em 1º de abril, porém, Zaquel morreu
após 11 dias de internação por Covid-19. Tornou-se um dos mais de 360 mil
brasileiros que perderam a vida para a doença.
Sem a presença do pai,
Gabriel fica mais exposto aos riscos, com a mobilidade reduzida e
impossibilitado de descer e subir o morro sem recorrer aos vizinhos. Além
disso, a casa onde a família mora atualmente tem duas escadas, o que torna a
rotina ainda mais difícil. O dono do imóvel alugado perdoou o pagamento
atrasado, mas deu prazo para que eles encontrassem um novo endereço.
No dia seguinte à morte de
Zaquel, amigos da igreja evangélica frequentada pela família começaram o movimento”.
A vaquinha virtual quer
arrecadar 100 mil para garantir um endereço “no asfalto”, adaptado e mais
acessível à viúva de Zaquel, Gilvânia Tavares Nunes da Silva, 37 anos, e seus
três filhos. Com
a morte do marido, Gilvânia, que é dona de casa, ficou responsável por
sustentar Gabriel, as duas filhas – Gabryelly, 10 anos, e Mikaelly Vitória, 7 –
e a mãe dela, que também é uma pessoa com deficiência (PCD), usuária de cadeira
de rodas. “Se eu saio para trabalhar, quem vai cuidar deles todos? Eu fico
impossibilitada de sair de casa e deixá-los sozinhos”, relata Gil, como é
conhecida.
Agora,
eles dependem de doações, já que a pensão recebida por Gabriel não é o
suficiente para pagar aluguel, alimentação e outros custos de uma família com
cinco pessoas – duas delas, com deficiência. “Nosso plano é comprar uma casa no
pé do morro, no nome do Gabriel, para que ele não precise ser carregado. A
gente quer ficar mais perto da escola, dos transportes e da igreja”, diz a mãe.
Os
organizadores da campanha solidária também buscam uma oportunidade de inclusão
de Gabriel no mercado de trabalho. A paralisia ocasiona a Gabriel limitações
apenas físicas: prestes a terminar o ensino médio, ele assiste às aulas a
distância, graças à doação de um computador. “Pelo menos não suspendem as aulas
por conta de tiroteio toda hora, tem sido até melhor”, diz o jovem.
Ele
aprendeu com o pai a realizar a manutenção de computadores e outros aparelhos
eletrônicos. Os dois passavam várias horas juntos fazendo reparos para os
vizinhos. “Trabalhar é o meu maior sonho, ajudar a minha mãe, terminar os
estudos. Quero seguir na área de informática”, planeja Gabriel. Zaquel
trabalhava desde criança. Nasceu em Maceió (AL) e, aos 8 anos, perdeu a mãe.
Aos 11, foi expulso de casa pelo pai, que havia se casado novamente com uma
mulher que não aceitava seus filhos. Passou a viver nas ruas e dormia nas
estações de ônibus. “Ele contava que, quando era
menino, sempre pedia ajuda, mas nunca roubou, vivia de carona e de pedir.
Depois trabalhou em centros de recuperação. Foi nascido e criado na igreja, um
homem muito sábio, cativante, que conquistava com o seu jeito espontâneo. Ele
ajudava muita gente”, descreve Gilvânia.
Em 2000, Zaquel chegou ao
Rio de Janeiro. No ano seguinte, conheceu a mulher com quem construiu a família
à qual se dedicou até o último dia de sua vida. “A vida do Zaquel sempre foi
ser guerreiro, nunca se envolveu com droga, bebida, nada de errado. Ele era uma
pessoa querida na comunidade, cantava e tocava teclado na Igreja Evangélica
Assembleia de Deus da Itaoca”, diz a esposa. O sonho de
Zaquel era ser juiz, mas ele só conseguiu estudar até o quarto ano do ensino
fundamental. Todos os dias, ele rodava as ruas do Rio de Janeiro para vender
meias e cuecas, principalmente nos bares. Às vezes saía de casa por volta das
11h e só voltava à 1h da madrugada, quando conseguia dinheiro suficiente para
pagar pelo aluguel. Nessa rotina, o trabalhador
já foi assaltado e sofria com a violência urbana. Zaquel seguia em frente para
que os filhos pudessem estudar. “Ele contava a história dele para os meninos e
dizia: o mundo me criou, mas com vocês vai ser diferente, eu vou ver vocês na
faculdade”, relata a viúva.
Na primeira fase da
pandemia, Zaquel ficou sem trabalhar por receio de contaminação com a Covid-19.
Isso só foi possível porque ele e Gilvânia receberam o auxílio emergencial.
Quando o benefício acabou, porém, a necessidade de garantir a comida na mesa
falou mais alto que o medo. “A gente acha que ele se contaminou no Saara,
quando foi lá no centro do Rio comprar material para vender”, acredita
Gilvânia.
Quando sentiu os primeiros
sintomas, Zaquel fez teste para detectar a Covid-19 e começou a tomar remédios
contraindicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), por não terem eficácia
comprovada no combate ao vírus e oferecerem riscos à saúde: ivermectina, amoxicilina e
prednisona, por exemplo.
“Ele tomou muita coisa por
recomendação de pessoas que tiveram Covid. Só foi tendo piora. Ficou uma semana
tomando e nada da febre passar, começaram as dores nos rins, dificuldade para
urinar. Até que ele vomitou sangue”, relata Gilvânia. Zaquel ficou internado no
Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, no Rio.
Durante a internação, Zaquel
passou cinco dias com auxílio de oxigênio e mais seis dias intubado. O paciente
também precisou realizar hemodiálise e se alimentar por sonda. Teve paradas
cardiorrespiratórias, os rins pararam e o coração não aguentou. No sexto dia de
intubação, Zaquel partiu.
“Foi um susto tremendo, uma
dor. Ele era o nosso provedor, a pessoa que corria atrás de tudo. Estou
tentando começar a seguir sem ele”, afirma a mulher. Gilvânia e Gabriel tiveram
sintomas leves de Covid-19, mas nunca receberam o resultado do teste, porque o
hospital estava “sem sistema”. A história de Zaquel e Gabriel se repete em vários
lares brasileiros. Pessoas com deficiência (PCD) e seus tutores reivindicam
prioridade na vacinação contra Covid-19. O governo federal incluiu PCDs entre
os grupos a serem vacinados, mas não detalhou o calendário para que a
imunização começasse. Em Campo
Grande (MS) e em alguns lugares de Minas Gerais e Piauí, a imunização dessa
parte da população começou a ser realizada. Na cidade do Rio de Janeiro, a
Secretaria Municipal de Saúde anunciou que todas as pessoas com deficiência
permanente poderão, a partir do dia 26 de abril, vacinar-se contra Covid-19.
Em 8 de
abril, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou um
projeto que autoriza a inclusão de pais, mães e tutores de PCDs nos grupos
prioritários de vacinação contra a doença do novo coronavírus.
A
sociedade civil também se articula para acelerar esse processo. O Movimento PCD
– Imunização já, com o lema “Eu Mereço uma Dose de Respeito”, está presente em
17 estados e conta com o apoio de organizações nacionais.
O Juntos Grupo também
tem promovido ações nesse sentido. “Lutamos para que todas as pessoas com
deficiência sejam vacinadas contra a Covid-19 imediatamente. Essa causa é
amparada pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.164, de 2015), que garante
o atendimento prioritário às pessoas com deficiência”, descreve a advogada
Adriana Monteiro, mãe de Ana Luísa, que tem Síndrome de Angelman e é autista.
As
pessoas com deficiência são mais vulneráveis porque têm: ·
Dificuldades de seguir os protocolos de segurança
(uso de máscaras, higienização das mãos e afastamento social); ·
Imunidade mais baixa; ·
Dificuldades de identificar e sinalizar os
sintomas; e ·
Dificuldade de ficarem sozinhas no hospital, em
caso de internação, já que muitas precisam de atendentes e cuidadores.
·
Serviço ·
Ajude a família de Zaquel ·
Acesse a campanha: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/uma-casa-acessivel-aos-filhos-do-zaquel ·
Ou via Pix: pelo celular
(21) 96936-9546 ou pelo e-mail gilvania.tavais@gmail.com.
(Metrópoles)
www.jornalaguaslindas.com.br
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