O
Partido dos Trabalhadores se prepara para a “guerra”. Cerca de 50 mil
pessoas são esperadas para tingir de vermelho, cor da bandeira petista, as
ruas de Porto Alegre durante esta semana decisiva para definir o destino
de um dos líderes políticos mais populares em todo o mundo.
Na
véspera de a 8ª Turma do Tribunal Federal da 4ª Região (TRF-4)
reunir-se pela primeira vez neste ano e começar a decidir se mantém, aumenta ou
extingue a pena imposta em julho pelo juiz federal Sérgio Moro a Luiz Inácio
Lula da Silva, o primeiro ex-presidente do país condenado por corrupção
desembarca por volta das 16h na capital gaúcha.
Às
17h desta terça-feira (23/1), é prevista a participação do petista em ato da
militância na chamada Esquina Democrática – cruzamento entre a Avenida Borges
de Medeiros e a Rua dos Andradas, no centro de Porto Alegre,
e tradicional ponto de manifestações populares na cidade. Ao
seu lado, estará a primeira mulher a assumir o comando da Presidência da
República e também primeira chefe do Executivo federal a ser destituída do
poder enquanto estava no exercício do mandato, Dilma Rousseff.
A
expectativa é de que a presença dos dois ícones petistas encoraje ainda mais a
militância a cobrar do Judiciário a liberação de Lula para a disputa eleitoral
deste ano. Mas pode ter efeito inverso: no fim da tarde, será realizado
protesto contra o ex-presidente coordenado pelo Movimento Vem pra Rua, no
Parque Moinhos de Vento, o Parcão, espaço usual de protestos em apoio à Lava
Jato, em Porto Alegre.
Embora ambos os movimentos tenham firmado uma espécie de pacto de não
agressão costurado pela Secretaria de Segurança Pública do estado (SSP-RS),
comprometendo-se a promover mobilizações pacíficas, o governo federal achou por
bem pôr as Forças
Armadas em prontidão.
Na segunda (22), o ministro da Justiça Raul Jungmann afirmou existir
“pessoal de pronto emprego para qualquer emergência”, diante da tensão em torno
do julgamento. “Estamos prontos e atentos… Há lugar para protesto, manifestar
opinião, mas dentro da ordem, com respeito às pessoas e à propriedade”, disse.
Os soldados agirão em casos excepcionais, afirmou o ministro, reforçando
o policiamento ostensivo, que estará a cargo da Brigada Militar da capital e de
duas cidades do estado convocadas para atuar em Porto Alegre durante esta
semana, além da Polícia Civil, da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e de tropas
da Força Nacional incumbidas de proteger prédios federais.
As avenidas que dão acesso ao tribunal serão
fechadas a partir do meio-dia desta terça. Às 17h, o perímetro
imediatamente em volta do TRF-4 se torna restrito a pessoas autorizadas. No dia
do julgamento, a Avenida Edvaldo Pereira Paiva, uma das principais da cidade,
será bloqueada para garantir a segurança do júri – o bloqueio será terrestre,
aéreo e também naval, uma vez que o tribunal encontra-se nas imediações do rio
Guaíba. “O objetivo das operações é a manutenção da ordem pública e da livre
manifestação”, afirmou o secretário da SSP-RS, Cezar Schirmer.
Há uma preocupação extra com a segurança dos três
desembargadores que julgarão os recursos de Lula e mais três
acusados contra suas condenações na Lava Jato, bem como a apelação do
Ministério Público Federal a respeito da sentença dada ao petista e a
absolvição de mais três envolvidos. Aeronaves da PRF estão prontas para levar o
trio julgador até a sede da Corte federal caso haja protestos ou lentidão nas
vias. Se o deslocamento terrestre for possível, os magistrados serão escoltados
por batedores da corporação durante todo o percurso.
Os números relacionados à sessão do TRF-4 são grandiosos e ajudam a
justificar a “operação de guerra”. Além dos 50 mil apoiadores do ex-presidente,
que se encaminharam à capital gaúcha em 300 caravanas saídas de todos os cantos
do país, a Corte federal em Porto Alegre credenciou 300 jornalistas – 43 deles
estrangeiros – para cobrir a sessão. Isso sem mencionar os participantes das
manifestações anti-Lula, público ainda não totalmente mensurado. Só o evento
CarnaLula, marcado para o dia do julgamento, tinha, até a madrugada desta
terça-feira, 1,5 mil confirmações de presença em sua página no Facebook e 5,4
mil interessados, mas os próprios organizadores admitiram esperar manifestações
discretas contra o petista.
Lula e Dilma, por sua vez, estarão escoltados por parlamentares
federais, estaduais, municipais e do Distrito Federal, além da militância.
Entre os congressistas, nove senadores e 43 deputados tinham confirmado, na
segunda-feira (22/1), presença em Porto Alegre. O distrital Ricardo Vale também
foi para a capital gaúcha, assim como o ex-governador do DF Agnelo
Queiroz. Mas nem todos os apoiadores receberam bem a notícia de que
o presidente de honra do Partido dos Trabalhadores estará na cidade nesta terça
(23).
Na opinião de João Pedro Stédile, integrante da direção nacional do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que já está na
capital, seria melhor Lula não ir ao ato agendado por seus seguidores. “Pode
ser interpretado como uma provocação. Se ele me pedisse opinião, eu diria que é
melhor não vir”, afirmou. Sem consultá-lo, Lula decidiu comparecer, mas, por
via das dúvidas, na quarta-feira (24) ficará em São Paulo, enquanto os
integrantes da 8ª Turma decidem seu destino.
(Metrópoles/Foto reprodução/redação JAL)



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