Na próxima terça-feira, dia 19, o
empresário Marcelo Odebrecht vai ficar frente a frente com o juiz de execução
penal da 12ª Vara Federal de Curitiba, Danilo Pereira Junior, e indicará ao
magistrado o endereço onde vai cumprir sua prisão domiciliar. A formalidade é o
último passo para que o empreiteiro, herdeiro de uma das maiores construtoras
do País, volte para casa exatos 914 dias depois de ser preso na 14ª fase da
Operação Lava Jato.
Marcelo
vai trocar a cela mal iluminada de 12 metros quadrados, nos fundos da
Superintendência da Polícia Federal na capital paranaense – que dividia com
outros acusados e delatores -, por sua residência em um condomínio de segurança
máxima no Morumbi, área nobre de São Paulo. O local foi onde a Polícia Federal
o prendeu no dia 19 de junho de 2015.
Sua
defesa começou a fazer os preparativos finais para que ele deixe a prisão a
tempo de passar o Natal em casa. A multa imposta no acordo de delação premiada
– R$ 73,3 milhões – já foi quitada. Como ele vai voltar para casa ainda está
indefinido.
Os
advogados têm em mente três opções para levar o empresário para a capital
paulista. A primeira é fazer como o que foi feito com outros delatores e
colocar Marcelo em um voo comercial escoltado por policiais. A hipótese
preocupa os defensores que temem algum tipo de hostilidade.
Outra
opção seria colocar o empresário em um carro e fazer o trajeto de 416,6
quilômetros até a residência. A última, que é a mais atrai a todos, é um avião
fretado. No trajeto, agentes acompanhariam o empreiteiro. Cabe aos defensores
indicarem o modo, mas o juiz costuma ouvir a PF para dar o “OK” final.
Em
São Paulo, sai de cena o beliche estreito de concreto e a rotina de exercícios
em um corredor improvisado e entra a vida em uma casa ampla com piscina, campo
de futebol e uma academia recém-reformada para atender as novas necessidades do
empreiteiro. Marcelo Odebrecht foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão, mas
por causa de sua colaboração à Justiça cumpre 10 anos por lavagem de dinheiro e
associação criminosa no âmbito da Operação Lava Jato. Pelo acordo, os primeiros
2 anos e meio, permaneceria preso em Curitiba. O restante, em casa, com
tornozeleira.
A
mudança de regime faz parte do acordo de colaboração premiada homologada pela
presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, em 30 de janeiro, dias
após a morte do ministro Teori Zavascki, então relator da Lava Jato. Marcelo
vai progredir ao regime domiciliar fechado. O empresário só volta a pisar na
rua sem qualquer tipo de restrição em 2025 quando terminam os prazos acordados
com a força-tarefa da Lava Jato. Pessoas próximas ao empresário afirmam que a
mulher, Isabela, e as três filhas adolescentes não escondem que encaram a
progressão do regime fechado para o domiciliar como “liberdade” nas visitas à carceragem
da PF. Em casa, ele poderá receber parentes de até 4º grau, como primos e
tios-avós, além 15 pessoas indicadas por ele à Justiça.
A
nova “cela” de Marcelo Odebrecht tem mais de 3 mil metros quadrados, ampla área
de lazer, quartos com closet e banheiros exclusivos – bem diferente do buraco
usado como vaso sanitário na cela na PF. Corretores consultados pelo Estado
avaliam que a casa custe entre R$ 20 milhões e R$ 30 milhões. O condomínio é
vendido no mercado como “o mais seguro de São Paulo”. O custo de manutenção é
de cerca de R$ 20 mil mensais para cada morador. Parte desse custo vai para a
manutenção de um jardim privativo projetado pelo paisagista Burle Marx. Além da
casa de Marcelo, outras 39 residências compõe o empreendimento. Nenhuma do tamanho
da do empresário.
Para
entrar ou sair do condomínio, o visitante precisa ser autorizado por um
morador, fornecer documento de identificação e digitais. O imóvel é vigiado por
câmeras por toda a sua extensão. Só na entrada, a reportagem contou 5 funcionários
(entre seguranças e porteiros). Entrar pela primeira vez no condomínio pode
demorar mais de 5 minutos. A reportagem tentou contato com a associação de
moradores, mas as ligações foram atendidas por funcionários do condomínio – que
além de serem proibidos de falar com a imprensa não garantiram nem sequer
transmitir recados ou pedidos de entrevista.
Até
a confirmação de que Marcelo Odebrecht de fato voltaria ao condomínio, a grande
preocupação dos vizinhos era com os saguis que costumam frequentar um parque
colado ao empreendimento. O temor era de que os casos de animais infectados com
febre amarela registrados na zona norte da capital chegassem às suas portas.
Agora, a volta de Marcelo virou uma preocupação.
A
calma do lugar, que só costumava ser alterada em dias de jogo no Estádio do
Morumbi, começa a ser quebrada com a volta do empresário. “Ouvi alguns
moradores brincando e dizendo que ‘nosso vizinho famoso está voltando’”, disse
um porteiro da região. Os moradores temem que com o retorno de Odebrecht a rua
fique “apinhada de imprensa e curiosos”.
Cárcere
Durante
os 30 meses de reclusão, Marcelo mudou. Do empresário reativo que se recusava a
responder a perguntas de policiais e do próprio juiz Sérgio Moro, o empreiteiro
se tornou mais simpático, dividindo o dia a dia com os outros detentos,
ajudando a colegas de cela e até desconhecidos que passavam apenas uma noite na
prisão. De acordo com pessoas que viram de perto a mudança, o empreiteiro
chegou a doar roupas a um preso por contrabando de cigarro falsificado que
chegou à carceragem sem casaco durante o período de inverno.
Dominado
pela ideia de “liberdade”, abandonou nos último dias o hábito de escrever e a
dieta rigorosa que seguia com frutas e barras de cereais, mas ainda manteve a
rotina de exercícios físicos diários. Marcelo e o companheiro de cela, o
lobista Adir Assad, acordam antes do sol nascer, fazem flexões, abdominais e
step (exercício em que se sob e desce um degrau repetidas vezes). Na Custódia
da Polícia Federal em Curitiba, onde Odebrecht passou a maior parte do tempo de
presidiário – ele chegou a ficar um breve período no Complexo Médico-Penal – a
limpeza é feita pelo presos.
A
PF fornece três refeições: um café com leite e pão com manteiga pela manhã e
almoço e jantar, onde o cardápio é uma variação de arroz, macarrão, feijão e
carne. Foram raras as vezes que Marcelo aceitou a comida fornecida. Ele possui
uma rede, que apelidou de “logística”, montada pela empreiteira para levar
alimentos frescos e refeições que aquecia em um micro-ondas ou em um fogão
elétrico instalados na carceragem.
Em
nota, a Odebrecht afirmou que “Marcelo Odebrecht está inteiramente empenhado em
continuar contribuindo de forma efetiva com as autoridades nos termos do seu
acordo de colaboração”.
(J.Br/Foto
reprodução/redação JAL)



Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.