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As revelações de Willer Tomaz


A avalanche causada pela delação premiada de executivos da J&F arrastou para dentro do escândalo um personagem que até o episódio ganhava proeminência no contexto jurídico do Distrito Federal. Amigo de figurões da advocacia na República das causas milionárias, Willer Tomaz caminhava para se consolidar, ele também, como um criminalista requisitado na capital do país. Mas seus passos foram interceptados desde o início deste ano e ele acabou preso em 18 de maio. Sua detenção preventiva foi um pedido do então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que, àquela altura, estava convicto quanto ao envolvimento do advogado em um esquema criminoso para atrapalhar a Operação Greenfield.

Quatro meses após se tornar alvo de operação policial, agora já em liberdade, Willer Tomaz se diz pronto para derrubar os argumentos que o levaram à cadeia. O advogado é um dos convocados pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da JBS e J&F e seu depoimento foi pré-agendado para a próxima quarta-feira (4/10) no Congresso Nacional. Deve ser um dos primeiros a ganhar holofotes na CPMI criada para investigar os procedimentos do acordo de colaboração premiada celebrado entre o Ministério Público Federal e os acionistas da J&F.

Se o rito se cumprir e Willer sentar diante de uma plateia de congressistas, vai repetir boa parte do que disse anteriormente. Entre os pontos intrigantes expostos pelo advogado alvo da Lava Jato está a acusação da existência de um acordo extrajudicial que teria sido firmado por integrante do MPF e os irmãos Batista anterior à delação oficial.

Willer Tomaz falou durante quase três horas sobre o acontecimento que, inevitavelmente, dividirá sua carreira em antes e depois da prisão. Negou atuar no ambiente arenoso do lobby e afirmou que os investigadores jamais vão encontrar movimentações financeiras que comprovem o cerne do pedido de sua detenção – o pagamento de mesada no valor de R$ 50 mil para um procurador da República. Garantiu ter meios para provar sua inocência.
Sob a orientação do ministro aposentado do STJ Gilson Dipp, Willer Tomaz construiu sua tese de defesa em cima do que considera uma fragilidade das investigações. “Fui acusado de atuar sorrateiramente em favor da JBS, mas há uma obviedade nunca considerada: eu tinha a procuração dos autos e neles atuei intensamente defendendo os interesses de minha constituinte, a Eldorado. Como a PGR pôde se amparar na premissa equivocada de que eu estava fazendo lobby?”.
Acomodado em uma das salas de seu confortável escritório na QI 1 do Lago Sul, casa que um dia abrigou a chamada República de Ribeirão, de Antonio Palocci, o advogado revisitou o histórico de fatos que desaguaram em sua prisão. Mas sempre sob a perspectiva de que fora uma vítima das circunstâncias e o ex-PGR, seu algoz numa busca “sem limites” para emplacar sucessor à frente do Ministério Público Federal (MPF).
Willer contou que a ligação com a J&F começou entre janeiro e fevereiro deste ano e que teria sido intermediada pelo presidente da seccional da OAB no DF.
“No final de janeiro de 2017 ou início de fevereiro, o Juliano Costa Couto me ligou e perguntou se eu poderia recebê-lo em meu escritório. Ele veio com o Francisco de Assis e Silva, diretor jurídico da JBS e me indicou para pegar a defesa da Eldorado, no âmbito da Greenfield. Na época, o advogado das pessoas físicas Joesley e Wesley [Batista] era o José Paulo Sepúlveda Pertence. Mas a Eldorado não tinha advogado constituído e estava a sofrer os efeitos da investigação". Willer Tomaz, advogado.

A essa altura, o advogado Willer, que mora na QL 6 do Lago Sul, em mansão vizinha a anabolizados escritórios da cidade, colecionava contatos importantes na capital. Um deles, com o procurador da República Ângelo Goulart Villela, a outra ponta de um triângulo que, para o Ministério Público, tinha o objetivo de atrapalhar as investigações envolvendo empresas do grupo J&F.
“O Francisco pediu para que eu enviasse uma proposta de trabalho ao diretor jurídico da Eldorado, o Daniel Pitta. Mandei uma proposta de honorários, ele me devolveu uma contraproposta, e nós chegamos a um termo. Eles pediram para que eu atuasse na Greenfield, Cui Bono? e Sépsis, desde a fase de inquéritos até o trânsito em julgado no Supremo. Seria uma operação longa, com a atuação de vários advogados da nossa banca. Assinamos o contrato em 23 de fevereiro. Há, portanto, um grande equívoco, porque o Janot argumentou, para pedir minha prisão, que eu atuava como lobista e não tinha procuração nos autos, que recebi R$ 4 milhões para vender um procurador e um juiz. Mas, veja, em 17 de fevereiro, eles me deram uma procuração assinada pelo presidente da Eldorado. No dia 22 de fevereiro, eu juntei essa petição ao inquérito para o qual fui contratado. O termo estabelecia R$ 4 milhões em pró-labore e outros R$ 4 milhões a título de êxito, em caso de arquivamento da investigação. O Janot omite tudo isso. Tenho inúmeras petições nos autos, audiências com o magistrado, consultorias para a empresa. Enfim, nada além do exercício da advocacia".

Na meta de explicar como um advogado poderia republicanamente intermediar encontro extraoficial entre um procurador da República integrante da Greenfield e um executivo da J&F, alvo das investigações, Willer afirmou ter havido uma negociação sigilosa entre representante do MPF e o grupo empresarial. A aproximação seria anterior à conhecida delação dos irmãos Batista.
“Também foi omitido pela acusação que, em setembro do ano passado, o Ministério Público havia feito um acordo extrajudicial entre Joesley e Wesley, subscrito pelo procurador da República Anselmo Lopes. Um acordo em que eles se comprometiam a depositar R$ 1,5 bilhão, valor equivalente ao que foi adquirido pela Petros e pela Funcef [fundos de pensão] das ações da Eldorado. Isso indica que já existia tratativa dos irmãos com o MPF quando o Francisco me procurou e me pediu para abrir uma nova frente de diálogo. Embora eles estivessem supostamente negociando um acordo de colaboração, Joesley e Wesley estavam com medo de serem presos, achavam que o Anselmo não cumpriria com o que havia sido acordado".

Apesar de Willer Tomaz ser um crítico do instituto da delação premiada e ter dito que nunca atuou formalmente em uma negociação do tipo, sua linha de defesa é justamente no sentido de mostrar que ele estava empenhado em aproximar um candidato à delação de um procurador da República. Tudo, no entanto, no âmbito da informalidade.
“Já em março, o Francisco me ligou perguntando se estava em Brasília. Esse foi o nosso segundo ou terceiro contato. Na ocasião, me disse que ficou muito impressionado com a atuação do nosso escritório no processo para o qual tínhamos sido contratados e pediu: ‘Preciso que você me ajude a abrir uma frente de diálogo com o MPF, com alguém confiável, não como o Anselmo, que vem agora querendo descumprir o que acordamos’. Eu, então, peguei o telefone na hora e liguei para o Ângelo. Somos amigos, mas, independentemente disso, ele sempre foi um procurador da República muito sério".

Willer e Ângelo se conheceram há pouco mais de dois anos, durante o aniversário de uma amiga em comum, a esposa do deputado Weverton Rocha (PDT/MA).
“O Ângelo me falou, naquela ocasião do telefonema, que tinha, sim, interesse em ouvir o Francisco e orientou que ele fosse à PGE [Procuradoria-Geral Eleitoral]. Mas Francisco disse achar melhor a reunião ser em outro lugar, e aí sugeriu o meu escritório. O Ângelo concordou em vir. O que há de antirrepublicano nisso, de ilícito? Sequer foi em uma distribuidora de bebidas encoberto por engradados de cerveja. A partir daí, tudo o que foi contado nada mais é do que uma grande armação dos delatores. Ângelo e Francisco se encontraram no meu escritório por não mais de 10 minutos. Francisco expôs a situação, sua insegurança, e combinou com Ângelo que entregaria documentos sobre as empresas, com a finalidade de medir o interesse do MPF em iniciar uma pré-delação, em uma oportunidade seguinte".

Dias depois desse primeiro encontro, Willer afirma ter recebido áudio de Ângelo sobre uma audiência, cujo conteúdo dava a entender que um dos executivos fundadores da Eldorado estava inclinado a fazer uma delação premiada, pressionado pelo procurador Anselmo. O advogado disse ter levado essa informação para Francisco, que teria demonstrado todo o interesse em dar encaminhamento às tratativas com o procurador Ângelo Goulart.
“Passados uns dias, ele [Ângelo] me enviou um áudio de uma audiência que tiveram com o Mário Celso Lopes, um dos fundadores da Eldorado, que estava sendo pressionado pelo Anselmo a delatar. Aí, ele [Ângelo] falou: ‘Diz para o Joesley que, se ele não delatar, o Mário vai delatar. E se o Mário delatar, não nos interessa mais a delação do Joesley’. Eu contei isso para o Francisco e ele me disse que o Joesley queria me encontrar. Desembarquei no aeroporto de Brasília e me encontrei com ele [Joesley] lá no hangar Ícaro, onde guardava seu jato. Ele me pediu para ouvir o áudio. Eu mostrei o início e ele saiu de onde estávamos com o pretexto de fazer o plano de voo. Quando voltou para onde eu o esperava, ele já tinha o gravador ligado. Eu telefonei para o Ângelo e disse que o Joesley ficou muito impressionado com o conteúdo do áudio e o Francisco iria separar os documentos para levar até ele [Ângelo] e dar sequência na pré-delação".

No caso, o recém-saído PGR respondia se causava suspeição o fato de o advogado Willer Tomaz receber em sua casa figuras importantes como o próprio procurador-geral de Justiça do DF, Leonardo Bessa. No que Janot disse: “Relacionamento da gente com advogado é uma coisa normal. Dos meus amigos que fiz em Brasília quando cheguei há 33 anos, a maioria é advogado. Todo mundo se conhece. E advogado de bandido não é bandido. A gente tem que ter esse relacionamento”.
Era a deixa que Willer precisava para se descolar um pouco mais do furacão J&F.
Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa de Rodrigo Janot informou que o ex-procurador-geral está em viagem fora do país e que não poderia ser localizado para comentar a entrevista.
“As conversas que Willer menciona são referentes às negociações para a assinatura do termo de ciência e compromisso, que foi fechado em outubro, enviado à Justiça e inclusive divulgado em nosso site”, disse a assessoria de Anselmo Lopes.




(Metrópoles/Foto: Rafaela Felicciano/redação JAL)

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