Lidar com a morte é um desafio. E quando o fim é
antecipado por vontade própria, o entendimento dos outros fica ainda mais
complicado, pois quem morre deixa inúmeras perguntas. Quem fica, sendo da
família ou quem tenha tentado e não conseguido, permanece sem respostas. Eles
são chamados, pela psicologia, de sobreviventes. Estimativa da Organização
Mundial de Saúde (OMS) quantifica que um suicídio afeta seis pessoas ao redor
da vítima, e que, a cada 40 segundos, uma outra pessoa escolhe ir embora. No
DF, a cada mês, dez suicidam-se. Para alertar sobre a questão, existe a
campanha Setembro Amarelo.
Camila (nome fictício) se tornou uma
sobrevivente em 17 de abril deste ano. Era uma segunda-feira quando ela recebeu
um telefonema no trabalho, por volta das 9h, avisando que a irmã, Gabriela
(nome fictício), 29, a mais nova de seis, havia se matado com um tiro na boca,
utilizando a arma do marido policial.
Camila se desesperou: “Eu não queria que
tivessem me avisado daquele jeito. Meu chefe teve que me levar em casa porque
eu não conseguia pensar. Foi um choque”. Para ela, o caminho do trabalho, na
Esplanada, até o sobrado em que todos moravam, em Taguatinga, nunca foi tão
grande e doloroso.
Quando
chegou, encontrou o pai com o sangue da irmã passado no peito e aos gritos,
perguntando o porquê de ela ter feito aquilo. Ninguém tem essa resposta.
Não havia mais
tempo para nada. As despedidas e abraços ficaram apenas nas últimas lembranças.
Camila lembra da irmã como uma menina bonita e vaidosa, calada e dedicada aos
estudos com o objetivo de passar em algum concurso público. A jovem não falava
muito da vida pessoal e nunca reclamava de nada. Para a irmã, Gabriela estava
“presa nela mesma, e, quando se guarda muito, o coração não aguenta”.
Apesar de se
perguntar o porquê de não ter conversado mais com a irmã falecida, Camila
afirma que, depois do fato, a família se uniu e está mais comunicativa. A
mulher entende que a melhor forma de evitar que mais casos como este ocorram é
falar a respeito. “É preciso que os pais conversem e orientem seus filhos”,
completa. Porém, uma das coisas que a incomoda é a forma preconceituosa com que
muitos enxergam o suicídio.
O psiquiatra e professor da Universidade de
Brasília (UnB) Rafael Boechat confirma que o preconceito em torno do assunto existe
e, por isso, muitos sentem vergonha de falar sobre isso, tornando um tabu.
Mesmo assim, ele lembra que o problema é muito mais comum que se pensa. Para o
psiquiatra, é importante que a família procure auxílio após o suicídio de um
familiar, pois não é fácil viver como um sobrevivente. Na tentativa de obter
respostas, a culpa torna-se muito grande.
Ele explica que os motivos que levam uma pessoa
a cometer suicídio são vários, desde depressão – o mais comum – uso de drogas
ou problemas externos com resolução complicada. Boechat analisa que os
sobreviventes – familiares ou aqueles que tentaram o ato, mas sobreviveram –
não seguem uma regra de como levar a vida. Se tiverem o apoio certo, têm
sucesso em lidar de forma diferente com os problemas, até mesmo com remédios,
se necessário.
Se Joelma Lopes, 32, hoje sorri com
tranquilidade é porque ela sabe que, apesar das dificuldades diárias e do
passado conflituoso, é possível seguir em frente. Porém, não era assim que ela
pensava até os 25 anos, quando tentou se matar tomando remédios e bebida
alcoólica juntos. Era 2010, no feriado de 12 de outubro. No fim da tarde, após
brigar com a família e avisar que se mataria, ela tomou uma das atitudes mais
drásticas de sua vida. Joelma passou dois dias em uma cama sem conseguir se
mover direito.
A jovem afirma que a vida era complicada. Aos
oito anos ela perdeu a mãe. Um ano depois, o pai teve o mesmo destino. Ela,
então, passou a morar com irmãos. Em uma dessas casas, foi abusada sexualmente.
Joelma só entendeu o que passou – entre 9 e 10 anos – em uma aula de ciências.
“O primeiro passo foi entender que eu não tinha
culpa. Era a culpa que me afundava e me levava ao suicídio”, lamenta. A virada
veio após procurar ajuda médica, pois “ninguém consegue nada sozinho”, e
prometer que nunca mais faria aquilo. Hoje, ela cursa Pedagogia e passou em um
concurso público. O trabalho de término de curso será sobre o auxílio do
professor no combate à pedofilia.
Para ela, a
receita da nova vida é: “Concentre, pense e busque ajuda. Para mim, quem tenta
o suicídio é uma pessoa forte, pois é uma decisão muito difícil, mas não deixa
de ser um momento de fraqueza e uma decisão ruim. Tem que estudar, trabalhar e
partilhar”.
“O Centro
de Valorização da Vida (CVV) presta serviço gratuito de prevenção do suicídio.
Os voluntários atendem a todos que buscam apoio emocional, de forma sigilosa,
seja em algum posto do CVV, por telefone (141) ou pela internet.
Segundo a
Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 17% das pessoas no Brasil pensaram,
em algum momento, em tirar a própria vida. Estima-se que até 2020 poderá
ocorrer um aumento de 50% na ocorrência anual de suicídios em todo o mundo,
ultrapassando o número de mortes decorrentes de homicídio e guerra combinados.
Amigos,
familiares, pessoas que tenham contato com alguém demonstrando tristeza
profunda e com um discurso pessimista precisam levar em consideração o risco de
suicídio. Poderão, assim, conversar e levar o indivíduo para receber ajuda
especializada”.
(J.Br/Foto
divulgação/redação JAL)



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