Diagnosticado no início de maio com um câncer de
pâncreas em estado avançado – com a metástase atingindo o fígado -, o
jornalista e apresentador de TV Marcelo Rezende, de 65 anos, logo iniciou o
procedimento recomendado para esse caso: o agressivo tratamento com
medicamentos quimioterápicos. Em 13 de junho, porém, Rezende anunciou que
abandonara a quimioterapia após a primeira sessão, contrariando seus médicos,
para tentar um tratamento alternativo com base em uma dieta.
O caso ganhou repercussão nacional e levantou o
debate sobre os riscos de trocar a quimioterapia por tratamentos sem base em
evidências científicas, como dietas, exercícios, suplementos, vitaminas,
massagens, ervas, acupuntura e meditação. O jornalista morreu no sábado, 16, e
seu corpo foi enterrado ontem no Cemitério Congonhas.
Embora afirmem que as terapias alternativas
possam mesmo ajudar o paciente a enfrentar os severos efeitos colaterais da
quimioterapia, os estudos e os especialistas consultados pela reportagem são
unânimes: esses métodos podem ser usados de modo complementar, mas não têm
eficácia comprovada contra o câncer e são incapazes de substituir o tratamento
convencional.
No caso de Rezende, a terapia alternativa
escolhida foi a chamada dieta cetogênica, que se baseia em evitar açúcar e
carboidratos. Desde que deixara a quimioterapia, o apresentador passou a
realizar viagens para receber o tratamento alternativo em Juiz de Fora (MG),
onde atua o cardiologista, nutrólogo e autor de livros de autoajuda Lair
Ribeiro, um dos principais defensores da dieta cetogênica.
O conceito por trás da dieta cetogênica é
bastante simples: as células cancerosas precisam de glicose para crescer e, ao
evitar o consumo de carboidratos e açúcares, o paciente cortaria a alimentação
do tumor, fazendo-o regredir por inanição.
O oncologista clínico André Sasse, coordenador
do Centro de Evidências em Oncologia da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp), é taxativo: esse tratamento simplesmente não funciona. “A dieta
cetogência é totalmente anticientífica, assim como as dietas para alcalinizar o
organismo. Não faz sentido do ponto de vista biológico. O tumor vai continuar
crescendo”, disse Sasse.
A opinião é compartilhada pelo também
oncologista clínico Felipe Ades, do Hospital Israelita Albert Einstein. Ele
lembra que a ideia da dieta cetogênica foi proposta pela primeira vez pelo
americano Raymond Rife, em 1931. “Ele foi genial ao seu tempo, mas lhe faltava
conhecimento, como da estrutura do DNA, só descoberta em 1953. Mais tarde foi
provado que alterações celulares – e não a glicose – causam o câncer. Se o
paciente para de comer açúcares, o corpo vai produzir glicose do mesmo jeito”,
explica.
Sasse afirma que o tratamento convencional tem
evoluído com os avanços científicos e tecnológicos e que vários tipos de câncer
já são curáveis com quimioterapia, mesmo em estado avançado. “Abandonar um
tratamento testado e aprovado e substituí-lo por terapias alternativas é o
mesmo que retroceder 20 anos, quando não tínhamos tratamentos tão eficazes”,
diz.
O oncologista
Helano Freitas, coordenador de Pesquisa Clínica do A. C. Camargo Cancer Center,
explica que no caso do câncer de pâncreas, quando se descobre a metástase, é
muito raro que o paciente sobreviva mais de um ano sem tratamento. Ele cita um
estudo britânico de 2006: “Com quimioterapia ou radioterapia, 58% dos pacientes
estavam vivos após um ano. Sem eles, não havia sobreviventes depois de um ano.
O risco de morte ao longo do primeiro ano foi 66% maior entre os pacientes que
não faziam o tratamento recomendado”, disse.
Especialistas
defendem que dietas e terapias alternativas, não fundamentadas em evidências
científicas, podem ser boas como tratamento complementar.
“Mas devem se
limitar a isso, jamais se pode abrir mão dos tratamentos com resultados
comprovados. Os hábitos saudáveis e as atividades físicas devem ser
estimulados, mas não substituem tratamentos”, diz o oncologista clínico André
Sasse, coordenador do Centro de Evidências em Oncologia da Unicamp.
Há uma
ressalva. Quando os médicos sabem que o paciente não poderá ser curado, eles
podem interromper a quimioterapia – especialmente em casos avançados nos quais
a pessoa não sobreviveria o suficiente para se beneficiar do tratamento.
“Mas caso
exista alguma chance, é preciso fazer a quimioterapia, mesmo com os impactos na
qualidade de vida. Se não for feita, o câncer vai crescer e aí sim a pessoa
perderá mais qualidade de vida, com dor, fadiga, enfraquecimento”, explica o
oncologista Felipe Ades, do Hospital Israelita Albert Einstein.
Os dois citam
um artigo publicado em agosto na prestigiada revista científica Journal of the
National Cancer Instiute, que revela os impactos deletérios das terapias
alternativas no tratamento de pacientes de câncer.
O estudo, da
Universidade Yale (EUA), mostrou que as terapias sem base científica estão
ligadas a taxas mais baixas de sobrevivência. Os cientistas avaliaram 840
pessoas com tumores colorretal, de mama, próstata e pulmão. Após cinco anos,
78,3% dos que usaram tratamento convencional estavam vivos, ante 54,7% dos que
optaram por terapia alternativa. “O estudo mostrou que, em alguns tumores, o
risco de morte dobra entre os que abandonam o tratamento convencional. As
pessoas estão trocando algo que funciona comprovadamente para 90% dos pacientes
por uma terapia que não foi estudada, ou que simplesmente não funciona”, diz
Sasse. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
(Fábio de Castro Agencia Estado/Foto: R7.com/redação JAL)



Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.