Depois da primeira fase de indiciamentos da Operação Panatenaico, integrantes do
segundo escalão do governo e pessoas fora do circuito político entraram no
alvo da Polícia Federal. E um nome mencionado por delator da
Andrade Gutierrez chamou atenção dos investigadores. Trata-se do engenheiro
Marcelo Reguffe, irmão do senador José Antônio Reguffe (sem partido-DF).
Marcelo é
citado no relatório final da PF em que 21 pessoas foram indiciadas. No
entanto, ele não está na lista de indiciados. Formalmente, não
foi objeto de investigação nessa primeira fase da Panatenaico.
Segundo depoimento do delator Roberto Xavier
Júnior, ex-engenheiro da Andrade Gutierrez, na época da construção do estádio,
o então superintendente operacional da AG no Centro-Oeste, Marcus Vinícius
Dutra Moresi, o informou que “havia um compromisso de pagamento de propina” de
3% para o então governador do DF, Agnelo Queiroz (PT), e de 1% para o vice,
Tadeu Filippelli (PMDB).
Ainda de acordo com o relatório elaborado pela PF, Marcos
Vinícius “ficou [no cargo] por um pequeno período e foi substituído por João
Marcos de Almeida da Fonseca”. Segundo o documento, em certa ocasião
Fonseca disse a Xavier que “a partir de 2011” houve a necessidade de “geração
de dinheiro” para os repasses irregulares.
O delator conta que um representante da Via Engenharia chamado Dagoberto
Rodrigues indicou a Concrecon “para auxiliar nesse processo de recebimento de
dinheiro”. Segundo o documento da Polícia Federal, foi então que houve “uma
reunião com os representantes da Concrecon, Paulo Borges e Marcelo Reguffe”.
Borges era o proprietário da empresa e Marcelo, diretor.
Ainda de acordo com Xavier, que está na lista de indiciados da PF, Paulo
Borges e Marcelo Reguffe teriam participado de “uma reunião na qual ficou
estabelecido que a CCN, que faz parte do grupo Concrecon, iria firmar contrato
com o Consórcio Brasília 2014, visando auxiliar na geração desses valores para
pagamento de propina”.
Segundo o depoimento do delator, a empresa da qual Marcelo Reguffe era
diretor forneceu concreto para as obras do Mané Garrincha “no valor de
aproximadamente R$ 30 milhões”. Ele relata que seria firmado um
contrato fictício com a CCN, de R$ 4 milhões, para a elaboração de traços de
concreto.
Questionado
sobre a execução do objeto desse contrato, [Xavier] respondeu que a elaboração
do real traço de concreto não foi feita pela CCN, e sim pela empresa Holanda
Engenharia. Logo, o contrato foi firmado para geração de valores para pagamento
de propina". Trecho do inquérito da PF
Xavier apresentou aos policiais uma nota referente a um dos
supostos contratos fictícios em que a CCN teria recebido o dinheiro e devolvido
para a Andrade Gutierrez fazer o repasse da propina.
Hoje, Xavier, que integrou o grupo formado pela Andrade e pela Via
Engenharia para a confecção do edital do Mané Garrincha, é um dos delatores do
acordo de leniência firmado entre a empreiteira e o Ministério Público Federal
(MPF).
Embora o nome de Marcelo Reguffe tenha aparecido no relatório,
não há nenhuma menção ao senador José Antônio Reguffe no documento. O
parlamentar sempre se posicionou publicamente contra a construção do Estádio
Mané Garrincha, assim como foi crítico, na época em que era deputado federal,
do Regime Diferenciado de Contratação para a Copa do Mundo, que conferiu uma
série de incentivos às empresas envolvidas no torneio. Tampouco apoiou Agnelo
Queiroz (PT) nas eleições.
Desde a conclusão do relatório final da Panatenaico, iniciou-se uma nova
fase das apurações. Na primeira etapa, Agnelo, Filippelli e o ex-governador
José Roberto Arruda chegaram a ser presos. A PF encontrou indícios contra os
três políticos e outras 18 pessoas, entre ex-gestores, advogados e
empresários de alguma forma vinculados à construção do estádio. A Polícia
Federal aponta um superfaturamento estimado de R$ 559 milhões na obra.
Agora o olhar dos investigadores está voltado para uma série de outros
nomes. Alguns deles integraram ou ainda fazem parte do segundo escalão do
organograma do GDF. Também há empresários e executivos que fizeram negócio com
o consórcio responsável pela construção do Mané.
É nesse contexto que Marcelo Reguffe e outros nomes citados pelo delator
Xavier podem ou não ser alvos de uma apuração mais cuidadosa da PF e do
Ministério Público Federal.
Até a última atualização desta reportagem, Marcelo Reguffe não havia
sido localizado para comentar o assunto. A Via Engenharia, a Andrade
Gutierrez e a defesa de Agnelo Queiroz também não haviam se pronunciado.
A defesa de Filippelli informou que não falaria sobre as acusações
de pagamento de propina ao ex-vice-governador porque não teve acesso ao
relatório final da operação.
O nome da operação é uma referência ao Stadium Panatenaico, sede dos jogos panatenaicos, competições realizadas na Grécia Antiga, anteriores às Olimpíadas. A história dessa arena utilizada para a prática de esportes pelos helênicos, tida como uma das mais antigas do mundo.
A construção foi toda remodelada em mármore por Arconte Licurgo, em 329
a.C., e ampliada e renovada por Herodes Ático, no ano 140 d.C., com capacidade
para 50 mil assentos.
Os restos da antiga estrutura foram escavados e restaurados com fundos
proporcionados para o renascimento dos Jogos Olímpicos. O estádio foi renovado
pela segunda vez em 1895, para as Olimpíadas de 1896.
(Metrópoles/Foto
divulgação/redação JAL)



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