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É correto retirar à força os dependentes químicos das cracolândias?


foto divulgação
 Dória acertou ao retirar à força os toxicômanos do crack das ruas? Como médico psiquiatra, que lida ininterruptamente com esta população há 36 anos, acho que sim. Quem perdeu a liberdade de escolher entre usar ou não uma substância já perdeu a capacidade mental de autodeterminar-se. É doença mental, consequentemente afeta a capacidade de autoavaliar-se, a capacidade de avaliar o mundo. Perdeu determinadas capacidades cognitivas e também as capacidades volitivas de determinar-se de acordo com eventuais cognições. Ou alguém acha que largar a casa, família, emprego, cama-comida-e-roupa-passada, para ir morar na rua, como um rato-em-busca-de-um-cachimbo é uma “escolha ideológica”, um “efeito nefasto da burguesia?”. É doença psiquiátrica severa, em sua maioria dos casos, afeta o lobo frontal, região do cérebro que é responsável , entre outras, por julgar o próprio comportamento. O fato de um doente não julgar-se um doente não o torna menos doente, ou menos perigoso para si ou para outrem. Todo dia, interno um “punhado de gente”, trazidos pelas famílias, com base nestas noções médicas,[sim, há critérios objetivos para isso, veja abaixo] sem autorização do juiz, do promotor,  ou de alguma  autoridade . Só com a avaliação médica-psiquiátrica do paciente, com o pedido da família/companheiros, que é, note-se, “rica” ou “classe média”. Mas quando é pobre, miserável, “de rua”, aí é preciso que os “Direitos Humanos”, a “Esquerda Coitadista”, o “Socialismo Estatal Judiciário/Promotorial/Defensorial” entrem em ação. Afinal é preciso que haja uma justificativa plausível e visível para a existência do Estado – mesmo em áreas em que essa não se faça necessária, ou se faça exagerada.
Cito, como exemplo, dois testes objetivos para hospitalizar a força um dependente químico (“dilema” de Dória). Se ele negativar os dois testes não precisaria hospitalizar.
1) Pergunte para ele, numa conversa de amigo, se seria bom pra ele ficar livre do vício. Se ele responder, com sinceridade, sem manipulação ou medo, que “sim”, mas não quiser hospitalizar-se, isso mostra que seu cérebro está dividido, uma parte sadia quer, uma parte patológica não quer.
2) Faça um SPECT cerebral dele (exame de medicina nuclear). Se o lobo frontal estiver normal, não interne. Se estiver patológico, p.ex. área de hipoconsumohipofluxo, precisa hospitalizar, pois é uma área que, quando anormal, impede o indivíduo de ter um correto discernimento e controle dos próprios atos.
Na minha experiência, 36 anos atendendo casos assim, em 100% dos casos de toxicomanos de rua, isso vai dar positivo.
Abaixo cito depoimentos espontâneos de dependentes que foram retirados à força das ruas, suas famílias, profissionais de saúde que os atenderam:
a/ Depoimento de um ex-morador da cracolândia, que é quem de fato interessa, sobre o que tenho dito: Bom-dia dr, obrigado por me aceitar no facebook. Sou dependente químico estou em recuperação, minha história não é diferente de muitas, Vejo muitos Estudiosos falando muita teoria bosta na verdade, já convivi muito na cracolândia também, lá é um assunto a parte, achei real a sua abordagem, gostaria mais uma vez de parabenizá-lo, espero que por nós o sr continue informando de forma correta a sociedade, obrigado pela atenção.
b/ Se eu não tivesse feito a internação forçada de minha mãe hoje ela não estaria viva e está bem agradecida limpa por 4 anos (E.L.) ( amiga minha no FB)
c/ Meu filho fez três internações compulsórias do pai e agora ele mora numa casa onde eu pago o aluguel e a comida dele. Ele está com 60 anos.( R.P. ) depoimento FB.
d/ Marcelo,  como prova viva de uma excelente estrutura familiar, após uma internação de 11 meses em clínica particular (nada judicial) voltei ao meu berço familiar e me encontro limpa há 8 anos, 10 meses e 2 dias! Ai de mim se não fosse minha família ao retornar para a sociedade! Ai de mim de não tivesse boa vontade! Ai de mim se não fosse a medicina! Ai de mim se não fosse Deus! (eu digo:  nada vale mais a pena pra um médico do que poder ouvir isso)
e/ “Olá, a respeito dessa críticas contra o Marcelo nesse problema de dependentes, nessa cliníca estou fazendo tratamento e tudo que médico fala faz sentido, estou presenciando tudo lá.”(L.R.)( Eu digo: o melhor premio de um medico é a melhora do paciente)
f/ “Eu tinha preconceito com a internação devido a várias informações erradas e negativas que recebemos. Depois que meu marido foi internado num hospital psiquiatrico adequado passei a entender o q o Marcelo Caixeta e equipe querem dizer, o trabalho que eles desenvolvem e que muitas vezes não é valorizado”. (L.R.M.S)
g/ Uma ocasião internei uma paciente de consultório, pedagoga, começou com drogas aos 12 anos e aos 36, já com HIV +, eu lhe disse no consultório que ou ela internaria naquele momento ou o ttto dela encerraria naquele momento e eu estaria fora, não a trataria mais! Ela argumentou que tinha direito de escolha e eu neguei, naquele momento eu decidiria e ela acataria, ou, encerraria minha participação! Ela foi para o hospital, estava com uma agulha quebrada na região inguinal! Foi a cirurgia, ficou 6 meses hospitalizada! Anos mais tarde, limpa há pelo menos 3 anos, subia uma quadra na área central de PoA e ao surgirem 2 PM em sentido contrário, um jovem casal que estava a sua frente largou no chão, disfarçadamente, uma trouxa de cocaína….ela viu, parou e deu-se conta de que agora, ela podia decidir! Sorriu e seguiu seu caminho, passando por cima do papelote! Choramos abraçadas qdo ela me relatou! A decisão médica firme, no momento adequado, como regra, é salvadora!
Nos próximos artigos  – terças, sextas, domingos – continuaremos abordando a temática das drogas, da relação complicada entre medicina e Justiça,  da retirada forçada de toxicômanos das ruas, sua hospitalização compulsória.


(Marcelo Caixeta, médico, especialista em psiquiatria pela Universidade de Paris XI (Le Kremlin-Bicêtre), sub-especializado em psiquiatria criminal (forense) pela Assoc. Bras. de Psiquiatria [marcelofcaixeta@gmail.com]. Escreve às terças , sextas, domingos, no Diário da Manhã, acesso livre em impresso.dm.com.br)

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