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O xadrez e a política - Parte II

Será que realmente existe alguma semelhança entre o xadrez e a política?

Comecemos pelo rei. O nosso rei é deveras semelhante ao rei do tabuleiro, não decide, não opina, não tem liderança sob as demais peças e é totalmente dependente da proteção da dama. Por isso, é difícil enquadrá-lo numa situação de “xeque”; pelo contrário: para adquirir mais proteção, o rei libera “cheques” para aliados incluindo-se suas próprias peças. Ao lado do rei estão a dama e o bispo. O bispo procura dar conselhos e passar os princípios religiosos relevantes para governar a cidade, não admitindo que o rei aceite proteção de outras correntes religiosas nem de orixás. Caso o rei se envolva com outras correntes, terá sua proteção comprometida por parte do bispo. Os bispos são mais discretos e realizam apenas movimentos na diagonal. Entretanto, também socorrem o rei principalmente quando há “cheques”. A função do bispo na política, ao contrário do jogo, não se relaciona apenas aos dogmas religiosos, mas a qualquer súdito que realize o papel de aconselhar o rei nas possíveis decisões que ele deva tomar. A dama, por outro lado, é quem define o jogo, e decide se o rei será morto ou se sobreviverá, se a cidade será invadida, queimada e devastada pelos inimigos, ou não.

O cavalo é uma peça importante na política, assim como no tabuleiro de xadrez. Ele realiza movimentos que somente ele faz, representa a competência técnica que a dama, apesar de todo seu poder no tabuleiro, não possui. A estratégia do cavalo para proteger o rei não é a de dar conselhos, como no caso do bispo, mas sim oferecer sua competência técnica para que o rei se torne protegido das investidas dos invasores e, desta forma, cumpra o seu papel de cuidar dos seus súditos. No xadrez, todas as peças buscam trabalhar em harmonia para proteger o rei. Entretanto, se uma dada peça se move precipitadamente, sem conceber o trabalho de toda a equipe, pode ser que todo o reino pereça como consequência. Na política, o cenário também é assim, pois os movimentos dos bispos, torres, dama e peões, quando impensados, levam o reino à ruína. Devemos realçar, aqui, que o trabalho técnico do cavalo pode ser uma arma poderosíssima na mão do rei para impressionar e coibir os ataques do adversário, mas, para isso, o cavalo precisa da valiosa proteção e cobertura da dama. Em outras palavras, a dama, como o elemento mais poderoso do tabuleiro, deve ser a peça mais inteligente, desprendida e coletiva do grupo pois, caso contrário, todo o reino perecerá.

Por fim, falaremos do papel da torre na política. Nas guerras medievais, as torres eram lugares privilegiados de onde se podia ter uma visão panorâmica além do castelo e, a partir deste olhar privilegiado, podiam-se prever os futuros ataques dos inimigos. Na política, a função da torre é igualmente importante, pois sempre haverá pessoas com uma visão de águia dispostas a avisar o rei dos perigos vindouros. No entanto, o rei não costuma dar ouvidos aos inúmeros avisos de quem enxerga mais longe. Ao contrário disso, o rei comumente só tem ouvidos para a sua dama. E a dama, por sua vez, como grande aliada dos peões, faz com que estes se tornem, na prática, os grandes conselheiros do reino. Os peões, como já mencionado anteriormente, não têm a competência técnica do cavalo, a sabedoria do bispo e nem a visão de águia da torre, mas são tragicamente as peças mais ouvidas pela dama e pelo rei. Quem seriam os peões na política? Deixo a cargo do amigo leitor decidir.

Na política, é comum vermos os peões aconselhando o rei e a dama, derrubando cavalos, delatando bispos, desqualificando torres e diminuindo a importância das demais peças do tabuleiro. Andam juntos com o rei e a dama nas grandes caminhadas, e se posam de importantes por estarem à frente do batalhão. Entretanto, por serem peças de fácil manuseio e de poder crítico limitado, acabam sendo usados pela dama e pelo rei para as tarefas mais corriqueiras.

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